domingo, 16 de maio de 2010

Designer de Moda ou Estilista?

Trabalho para a disciplina "Design e Estampas", professor Sérgio Sudsilowsky.

CHRISTO, Deborah Chagas. Designer de Moda ou Estilista? Pequena reflexão sobre a relação entre noções e valores do campo da arte, do design e da moda.
Colóquio de Moda, Salvador, 2006.

Cada vez mais Moda e Design se aproximam. O design invadiu o mundo da moda renomeando cursos antes Estilismo ou apenas Moda, agora Design de Moda, e também na alteração de sua grade curricular inserindo disciplinas específicas de design. A moda, por sua vez, influencia pesquisas e pesquisadores no campo do design e até inspira calendários comerciais de empresas de design, que passam a adotar lançamentos sazonais de novos produtos com ares de coleção de moda.

Embora a relação entre esses campos pareça antiga e óbvia, há até pouco tempo atrás estudantes de design tinham dificuldades em desenvolver trabalhos voltados à moda. E conteúdos necessários a esse campo (coleções por estação, peças conceituais e observação de tendências) eram mal vistos pelo designer de produto, especialmente no Brasil, onde o design é fortemente influenciado pela tradição modernista, que preza o racionalismo e o funcionalismo, longe dos conceitos de arte e moda.

Fora do Brasil, onde a palavra design é comumente associada à moda, o estilista é conhecido como fashion designer, que em uma tradição literal seria designer de moda. Sendo assim, não deveria existir diferenciação entre os dois. No entanto, aparentemente, o designer de moda está associado ao campo do design, à questão da indústria e aos fatores que envolvem a produção de um objeto, preocupado com as questões objetivas do produto. Já o estilista estaria relacionado ao campo da arte, seria um profissional livre e criativo, preocupado com os conceitos e conteúdos simbólicos e subjetivos, desvinculado de questões que envolvem o mercado.

Para entender melhor a relação entre estilista e designer de moda vejamos algumas noções do conceito de artista e designer.
Até o final do século XV, o artista era um artesão, seguindo normas pré-estabelecidas e não uma expressão individual. Com a ascensão das classes mercantis na Itália, que viam na arte um meio de auto promoção, a demanda e a competitividade do mercado aumentaram e o artista se emancipou e ascendeu socialmente. O realizador da obra de arte passou a ser visto como gênio inato, dotado de talentos especiais que faziam com que ele próprio tivesse mais valor que a obra em si. A atividade do artista se tornou mais intelectual que artesanal. A prática das oficinas deu lugar à formação teórica das escolas e academias de arte. As noções românticas do século XIX reforçam a idéia de que a cultura era uma realidade superior, alheia às demandas econômicas, e a obra de arte era uma expressão livre de um indivíduo talentoso à margem das demandas sociais.

Com a Revolução Industrial, a indústria da cultura se desenvolveu. A ampliação e diversificação do público consumidor provocaram também uma diversificação de produtos e produtores de bens simbólicos, propiciando o desenvolvimento de uma “teoria pura da arte”, que determina a diferença entre “arte como simples mercadoria” e “arte como pura significação”. Artistas e intelectuais passam, então, a buscar uma distinção cultural, reforçada pela noção do artista como gênio e criador.

Algumas definições de design sugerem uma relação com a indústria e com o mercado, sendo o design uma atividade que identifica as necessidades do consumidor e as melhores formas de supri-las com algo produzido industrialmente. Sob um olhar pragmático e técnico, reforçado no Brasil pela tradição modernista, esse conceito tenta aproximar o design da ciência e da técnica e afastá-lo do campo da arte.

Entretanto, historicamente, o surgimento do profissional que configura objetos usados no cotidiano do homem teve sua origem no campo das artes. Na Idade Média, o mesmo profissional que pintava um quadro, construía objetos utilitários. Somente no século XV, como surgimento das manufaturas e desenvolvimento das ciências, a divisão de arte aplicada e arte pura foram estabelecidos. O então artista-artesão da Idade Média passa a ser ou o operário, responsável pela produção do objeto, ou o mestre-desenhista, responsável pelo seu projeto. Logo o projeto passa a ser visto como mercadoria e o profissional que o concebe como peça importante de uma empresa. Visto que esse profissional se origina do campo das artes, as crenças, os valores e posição do designer na sociedade, também serão balizados pelas noções que norteiam este campo tais como criatividade, inovação, superação do velho através de manifestações artísticas, etc. Isso pode explicar porque alguns designers são vistos como artistas e alguns objetos ganham status de obras de arte. Mas isso não significa que não haja relação destes com a indústria e com o mercado. Afinal, foi na Revolução Industrial que a atividade de designer ganha força, e as noções da industrialização permanecem, ainda hoje, no campo do design.

Existem definições de design baseadas no objeto e outras baseadas no processo. Juntá-las, porém, não seria suficiente para definir design. Devemos levar em conta que objetos não são apenas soluções para necessidades objetivas dos usuários, pois estes também possuem necessidades subjetivas. Logo, um objeto pode ter várias funções e significados. Sendo assim, a atuação do designer considera, além das questões produtivas e técnicas, também questões expressivas e simbólicas.

Podemos observar que o termo design possui tanto valores relacionados à indústria e ao mercado quanto ao campo da arte. Portanto, dizer que o design de moda está vinculado ao design, significaria dizer que também possui influência dos dois campos em seus significados e discursos. Assim, se o estilista está ligado ao campo da arte e o designer está ligado aos campos da arte e do mercado, podem ser entendidos como termos diferentes de uma mesma definição.



Deborah C. Christo apresenta argumentos históricos irrefutáveis para defender a idéia de que estilista e designer de moda são termos diferentes para um mesmo significado. Mostra que os valores que alicerçam esses conceitos têm a mesma origem, e foram adotados termos diferentes por alguns possíveis motivos como tradução falha, preconceito e ausência de uma análise mais profunda sobre as funções deste profissional. Faz-se entender, então, a necessidade de fundir esses nomes em um só, sob os valores mais abrangentes do design, promovendo o posicionamento adequado da profissão no mercado.

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